Da cozinha ouve-se a água a correr. De cabelo amarrado e com os sapatos atirados para o mais escuro canto da sala quadrada e vazia, lá está ela, agarrada à sua vida miserável e sem ânimo. Arrepios de instabilidade, resultante da temperatura daquele antidepressivo, que havia virado rotina. E uma vaga de frio percorreu-lhe o corpo, de tal forma que se sentiu desmaiada. Numa casa vazia e sozinha, com comida espalhada e loiças partidas, cortinados quase negros e uma aura que nunca pensava vira ter. Estava ela ali, sozinha num mundo que já não conhecia, talvez que nunca tenha conhecido e depois de todas as rotinas a que lhes foi atribuído o nome de “dia-a-dia” não restava mais nada. Tinha de se levantar todas as manhãs, para um emprego com o qual nunca desejara, ficava ali, fechada durante todo o dia e, à noite era uma monotonia. Já não tinha contato de qualquer amigo e a sociabilidade nunca fora o seu forte. Sentada no sofá que espirrou pó, com todas as caixas de calmantes desde os seus vinte anos. Despediu-se da vida que tinha, não merecendo pena de si.
Manhãs solitárias dão origem a correrias absurdas à volta do sofá, por causa do comando da rádio, cds dos clássicos do rock espalhados pela mesa de centro enquanto os rapazes escolhem e eu a encomendar pizzas para o almoço, porque o ambicionado rolo de carne saiu queimado, graças aos cinco minutos no pátio a fumar o cigarro. O sol convence-nos a pôr a mesa no jardim, com os cães a combaterem contra os enjoos das tremendas voltas pela relva, música que até o vizinho ouvisse de fundo e a piscina a atrair-nos tremendamente. O suave efémero desejo de gelado e café e como não podia faltar, a típica conversa de veículos entre os dois homens da casa, que receberiam, como provocação a famosa desconversa de compras e roupas curtas. E risos, ecos, risos ecoantes no fim de cada música.










